Cinco anos de sintomas soltos, quatro laudos e umas dez suspeitas jogadas no ar, colocados em ordem. O que já foi descartado, o que ainda está em aberto, e o que perguntar.
Bruna Conte · 25 anos · atualizado em 01.09.2026 · 18h
O hemograma de hoje veio melhor que o de julho: leucócitos subiram de 4.800 pra 5.650 e os neutrófilos de 2.602 pra 3.124. Agranulocitose é neutrófilo abaixo de 500, então ela está seis vezes acima do limite. Os dois meses de dipirona não tocaram na medula. Dengue também deu negativo nos dois testes.
O que tem prazo agora é outro: ligar pros consultórios de São Paulo antes de embarcar. Consulta particular com esses nomes tem fila de 2 a 6 semanas, e vocês ficam um mês. Se marcar só chegando lá, o mês acaba antes da consulta. Os telefones estão no fim da página.
E o Dorflex continua fora, não por causa da medula, mas por causa da dor de cabeça de rebote. Essa parte não mudou.
Ela tem um diagnóstico orgânico confirmado: endometriose no peritônio. Ele explica sozinho a dor pra urinar com urocultura sempre negativa, o cansaço, a dor no corpo todo e provavelmente a enxaqueca. Não é mistério, é uma doença conhecida sendo tratada em pedaços.
Em cima disso vieram três coisas que ninguém amarrou: uso diário de analgésico criando dor de cabeça de rebote, cálcio acima da referência que nunca foi investigado, e uma curva de insulina com formato suspeito que pode explicar as tonturas que vão e voltam.
O que ela não tem: anemia, diabetes, problema de tireoide, infecção urinária, inflamação no corpo, nada no fígado nem nos rins. Isso está tudo medido e limpo.
Pode parar de pensar nisso. Cada um com o exame que fechou a questão.
Uma ressalva de honestidade: os valores de tireoide, vitamina D, B12, VHS, zinco, homocisteína e glicada não aparecem em nenhum dos quatro laudos que eu li. Provavelmente estão em outros laudos que não vieram junto. Vale conferir o papel do TSH e da vitamina D antes de riscar essas duas linhas, porque se elas não existirem, são dois exames importantes que vão deixar de ser pedidos.
Em ordem de prioridade, com o que resolve cada uma.
Quem toma analgésico dez a quinze dias por mês durante meses entra num ciclo em que o remédio passa a causar a dor que deveria tratar. É a explicação mais forte pra dor de cabeça constante, e ficou ainda mais forte depois que a anemia foi descartada.
A curva de insulina de 16/07 mostra insulina em 52 aos 60 minutos, ainda alta enquanto o açúcar já estava caindo. É o mecanismo da hipoglicemia reativa, e é a única hipótese que explica os sintomas irem e voltarem várias vezes no mesmo dia, além da sensação diária de pressão baixa e possivelmente da ansiedade.
Cálcio 10,2 com referência até 10,0. É o único valor fora da faixa em todo o painel e ninguém comentou. Como a vitamina D está normal, o cálcio alto não vem do suplemento. Cálcio elevado causa sede, muito xixi, cansaço, dor no corpo, enjoo e alteração de humor, que é quase a lista inteira dela.
Ferritina 43,2. O laboratório chama de normal porque a faixa dele começa em 13, mas na prática clínica abaixo de 50 já se trata quando há cansaço e dor de cabeça. E o exame é de 01/07, com dois meses de sangramento depois disso.
Nunca foram olhados. Adenomiose é a irmã da endometriose, fica dentro da parede do útero e é a explicação mais provável pra um sangramento que demora a ceder. E DIU hormonal também desloca.
Ela tem endometriose peritoneal confirmada. Isso explica, sozinho, coisas que passaram anos sendo tratadas como problemas separados:
DIU hormonal é tratamento de endometriose, e o médico acertou em contraindicar o de cobre, que teria piorado tudo. Sangramento irregular nos primeiros 3 a 6 meses é o comportamento esperado do dispositivo. Ela está em 5 meses com o fluxo já reduzido a borra de café, ou seja, na curva normal, só no ritmo lento dela. E com suspeita de enxaqueca com aura, método sem estrogênio como o Mirena é justamente o seguro.
Não mexer nele agora. Se a dor de cabeça continuar depois de dois meses sem analgésico nenhum, aí sim vale discutir sensibilidade hormonal com o especialista. Um experimento de cada vez.
Até o hemograma sair, nada com dipirona. Olhar a composição da caixa e procurar dipirona sódica ou metamizol.
Analgésico combinado com cafeína é o pior de todos pro efeito rebote, e é o caso do Dorflex e da Neosaldina. Regra prática: fugir de caixinha com três ou mais substâncias na composição.
A sensação de estar “chapada” tem explicação: a orfenadrina do Dorflex age no sistema nervoso central e causa exatamente isso. E o CBD bloqueia as enzimas do fígado que eliminam a orfenadrina, então ela bate mais forte e demora mais a sair. Não foi o CBD ter ficado mais forte, foi a combinação. A dipirona ainda baixa a pressão por conta própria, e a boca seca vem dos dois juntos.
A regra que decide se vai funcionar: no máximo 2 dias por semana de qualquer remédio pra dor. Acima disso o ciclo se reinstala e o sofrimento foi à toa. Vale marcar num calendário.
Os dias 2 a 10 são os piores, e é onde a maioria desiste. Depois melhora de forma consistente. Diferença clara em 2 a 4 semanas, benefício completo em 2 a 3 meses. Entre metade e dois terços das pessoas que completam o desmame melhoram de verdade.
Só começar 2 a 3 dias depois do último Dorflex. Com orfenadrina no corpo, qualquer tontura vai ser creditada ao remédio e o teste não vale nada.
Três respostas sim, repetindo duas ou três vezes, é pista forte.
| Hipoglicemia | Dorflex | |
|---|---|---|
| O relógio que importa | Tempo desde a comida | Tempo desde o comprimido |
| Quando bate | 2 a 4h após comer | 1 a 3h após a dose |
| Comer resolve? | Sim, em 15 min | Não muda nada |
| Vem junto com | Tremor, suor frio, fome | Boca seca, visão embaçada, sono |
Custa entre 50 e 80 reais e acaba com a adivinhação. A medida certa é na hora do sintoma, antes de comer.
Anotar em quatro colunas, num papel na geladeira ou nas notas do celular: hora · última refeição · sintoma · melhorou ao comer? Três ou quatro registros já mostram o padrão, e valem mais que meia consulta.
Os cinco primeiros cabem numa coleta só. Dá pra marcar o que já foi feito.
Do painel de 01/07 e da curva de 16/07, só o que muda alguma decisão.
| Exame | 01/07 | 01/09 | Leitura |
|---|---|---|---|
| Hemoglobina | 14,0 | 13,8 g/dL | Estável. Sem anemia |
| Leucócitos | 4.800 | 5.650 | Subiu. Medula intacta |
| Neutrófilos | 2.602 | 3.124 | Subiu. Agranulocitose descartada |
| Ferritina | 43,2 ng/ml | não repetida | Abaixo da régua clínica de 50. Repetir |
| Cálcio | 10,2 mg/dL | não repetida | Acima da referência. Ainda sem PTH |
| Fígado · TGO / TGP / GGT | 20 / 16 / — | 21 / 14 / 18 | Normal nos dois. GGT novo, normal |
| Glicose · curva | 92 → 140 → 116 | 0 / 60 / 120 min | Normal |
| Insulina · curva | 5,3 → 54,0 → 52,0 | 0 / 30 / 60 min | Ainda alta aos 60 min. Parou cedo demais |
| Dengue · NS1 e IgM | — | Não reagente | Descartada. Urocultura de 07/07 também limpa |
Fonte: laudos Unimed Maceió. Coletas em 01.07, 07.07, 16.07 e 01.09.2026. O painel de setembro foi de febre: hemograma, dengue, fígado e rim. Cálcio, PTH, ferritina e a curva longa continuam sem ser feitos.
Essas cinco fazem mais pela investigação que qualquer remédio novo.
E uma pergunta prática sobre o suplemento: dá pra separar o ferro das outras cápsulas? As três vão juntas à noite, e o zinco e o magnésio competem com o ferro pela absorção. Ferro de manhã com suco de laranja, o resto à noite, pode render bem mais.
O caso dela é pouca doença visível e muita dor, o que não é caso cirúrgico de primeira linha. O que ela precisa é de um clínico que coordene, com fisioterapeuta de assoalho pélvico na equipe. Ligar antes de embarcar: consulta particular com esses nomes tem fila de 2 a 6 semanas.
O que melhor bate com o perfil dela. É o único que declara equipe com fisioterapeuta, nutricionista e psicólogo junto dos cirurgiões, e faz tratamento clínico além do cirúrgico. Tem ressonância de pelve na casa. Coordenação do Dr. Rogério Tadeu Felizi.
Fica a cinco minutos de onde vocês vão ficar. Doutora em ginecologia pela FMUSP, residência na USP, clínica dedicada só a endometriose. Perfil @endometriosesp com 19 mil seguidores. Perguntar na hora de marcar se tem fisioterapeuta de assoalho pélvico.
Chefe do setor de Endoscopia Ginecológica e Endometriose da Santa Casa de São Paulo. A clínica se organiza como equipe multidisciplinar coordenada, que é o modelo certo. Bom meio-termo entre peso acadêmico e atendimento integrado.
Livre-docente da USP, do Setor de Endometriose do Hospital das Clínicas, hoje vice-presidente do Einstein. Perfil mais acadêmico e cirúrgico: serve melhor pra bater o martelo no diagnóstico do que pra acompanhar semana a semana.
Provavelmente o nome mais influente de endometriose do Brasil. Livre-docente da FMUSP, foi responsável pelo Setor de Endometriose do Hospital das Clínicas, fundador e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endometriose. Hoje dirige a ginecologia do Hospital BP.
Uroginecologista, opera endometriose e trabalha com adenomiose e dor pélvica. Como o sintoma que começou tudo foi urinário e levantaram bexiga dolorosa, é a pessoa certa se esse for o centro do problema.
Sinal de alerta na consulta: médico que propõe cirurgia antes de ressonância com mapeamento e antes de tentar o tratamento clínico otimizado. Com pouca doença peritoneal e muita dor, operar primeiro costuma decepcionar.